29 Março 2017
Página inicial / Canais / Academia
Entrevista a Lídia Jorge - “Prémio Vergílio Ferreira 2015”, Universidade de Évora, 5 de março 2015

No dia da cerimónia de entrega do Prémio Vergílio Ferreira o Ueline esteve à conversa com a escritora Lídia Jorge que nos falou da sua proximidade com o autor de “Aparição”, da sua própria obra e do panorama literário nacional. 

O que sentiu quando soube que tinha sido distinguida com o Prémio Vergílio Ferreira pela Universidade de Évora?

Senti-me comovida porque não é fácil anunciar-se um prémio que tem o nome de um grande amigo, um amigo com quem privei durante 16 anos e já lá vão 19 anos que ele não está, mas para mim é como se estivesse e, portanto, o facto de ser-me atribuído este prémio, criou-me um sentimento duplo: por um lado falou-me da realidade de ele já cá não estar, de tal forma que o seu nome é hoje um Prémio e, por outro lado, deu-me uma grande alegria, uma grande alegria de vida porque percebi que ele está absolutamente presente na minha vida e fui capaz, naquele momento em que o Professor Antonio Sáez Delgado me disse isso, de reviver como num filme tudo aquilo que foi a nossa ligação tão intensa. Então, não é um prémio qualquer, é um prémio que vem carregado com sentimentos, não só contraditórios mas misturados, e todos no sentido de aceitar, como uma espécie de recompensa pelo grande afeto que mantenho pelo Vergílio Ferreira.

Mas é também o reconhecimento pela sua obra…

Sim, claro! É esse o outro ponto, não é? Mas eu devo dizer que, claro que foi pelo patamar pelo qual mo deram, e isso também me vai dizer que o Vergílio, delegando nas vozes dos membros do júri, chegou à conclusão que eu merecia, e ele comigo sempre foi muito exigente e, portanto, se chegou a esse ponto é porque ele está contente comigo.

O que vai dizer hoje à plateia no momento da entrega do prémio?

Hoje vou fazer uma espécie de relato daquilo que significa para mim o Prémio e vou dizer precisamente isso, como afetivamente este prémio me tocou, mas vou também falar de uma espécie de lição permanente de como o Vergílio Ferreira foi para mim do ponto de vista intelectual.

Foi seu mentor?

Foi meu mentor. O que não significa que eu não fosse uma dissidente. Eu sinto-me uma dissidente dele. E também parte dessa emoção que eu tenho é por perceber isso. É porque nós colocamo-nos do ponto de vista da ficção, não digo em planos opostos mas em territórios que têm olhares diferentes sobre a realidade. Portanto, eu vou falar como foi frutífero esse confronto permanente com alguém que me puxava para um campo e eu era incapaz de entrar nesse campo… estava no campo do seu adversário. Adversário com todas as aspas, não é? Então vou falar desse confronto e vou mostrar como ele continua a ser importante e como ele foi, de certa forma, foi também uma espécie de testemunho pessoal que ele me passou, como ele fez uma espécie de carta ao futuro. Um dos livros dele chama-se “Carta ao Futuro” e, de certa forma, nas conversas que nós íamos tendo, ele previu o futuro, sobretudo do género romance. Previu, falhando em determinada medida mas acertando em cheio noutra medida. Vou passar esse testemunho pessoal que, talvez não haja muitos escritores que o possam fazer, e eu pensei que seria bom falar disso.

 Qual a sua visão da literacia em Portugal?

Julgo que o país caminha por dois caminhos opostos, pelo menos contrastivos, e que é muito difícil ler o que está a acontecer. Por um lado, em termos de literacia, não há dúvida nenhuma que este é um país que está em franco desenvolvimento, que a escola de hoje é outra escola, sem as oscilações anuais e epocais, que não tem nada a ver com a escola de há 20 ou 30 anos. Acho que nós sentimos que o país é outro, que a relação da escola com o mundo é outra, que há uma alteração profunda para melhor, simplesmente há um cruzamento que é difícil de ler, porque ao mesmo tempo a cultura dominante atual é uma cultura que promove uma iliteracia e, portanto, há aqui duas forças que são opostas e eu não sei qual vai ser a síntese. Aquilo que me parece é que o momento de se passar a mensagem de que o perigo da iliteracia está a bater à porta, através de uma cultura que é de segmentação, de fragmento, de não leitura de objetos completos mas de pequenas frases, a criação de uma espécie de preguiça saltitante da memória, preguiça saltitante da imaginação, que pode vir a ser a inimiga daquilo que nós sonhamos, que era uma cultura densa, de um país que se sustentasse na base de cidadãos informados e de forma densa. Vamos ver se isso acontece…

Dos novos escritores, há alguém que saliente?

Sim, são vários, são tantos! E é uma alegria ver que a Literatura continua, e continua com outras perspetivas, e também prolongando. Falei há pouco do Pedro Rosa Mendes, que é para mim dos grandes escritores atuais, não é tão falado por várias razões mas é um escritor excelente, é um grande escritor, e depois há o Gonçalo M. Tavares, o José Luís Peixoto, a Inês Pedrosa, a Patrícia Reis…

Há uma boa mão de herdeiros…

Sim, sim! Mas há mais, uma escritora que eu acho fantástica, que é a Dulce Maria Cardoso. Isto para falar nalguns nomes porque há outros… O Ivan Junqueira… há uma série de escritores, cada um com a sua abordagem mas que têm coisas em comum. De facto, é um gosto perceber que há aqui vozes singulares importantes, com grande nível literário.

E a sua voz, Lídia Jorge, qual é a sua voz no panorama literário português?

É uma coisa que eu não tenho a noção. Tenho a noção da escrita, tenho a noção de que nunca cedo a qualquer imitação que não necessito disso, sinto que me basto em termos de voz, agora saber o alcance dela, qual é a profundidade… Percebo também, há bocadinho não o disse mas é verdade, sinto que é muito difícil eu ter seguidores porque eu não aposto na parte em que a escrita é o fundamental. Eu utilizo a escrita como uma espécie de vestido, custa muito aos poetas ouvir isto, mas eu contruo metáfora. Eu construo uma espécie de cenas que eu quero que sejam demonstrativas da realidade. O que eu faço é para cada livro, eu submeto-me a essa cena, sou uma escritora muito mais difícil de imitar porque há uma espécie de super-realidade que eu transfiguro, que exige para cada livro uma espécie de submissão da voz, então isso torna difícil que eu tenha herdeiros.

 

Publicado em 06.03.2015