19 Novembro 2017
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Artes Visuais e Design
Um quadriénio de qualificação
No final de um longo período à frente do actual Departamento de Artes Visuais e Design (DAVD) na Universidade de Évora, sinto o dever mas ao mesmo tempo tenho o maior prazer e (confesso) alguma vaidade, em prestar contas à academia por este período de mais de uma década de actividade intensa e frutífera.
Entrei para a Universidade em 1999, no final do século passado. A licenciatura em Artes Plásticas era então um programa desarticulado que funcionava nas ruínas dos Leões, tentando preparar umas poucas dezenas de alunos para serem docentes no Ensino Secundário.

Como colaborador da Prof.ª Clara Menéres, que assumira recentemente a direcção, ajudei a partir de 2000 em duas úteis reestruturações dos cursos por ela levadas a cabo, lançando uma nova licenciatura que incluía nomeadamente a área de Multimédia e o Mestrado Intermédia. Foi esse um primeiro salto qualitativo importante numa década decisiva.

Foi no entanto desde 2007, como Director do Departamento, que foi possível lançar um projecto coerente movimentando este ano lectivo cerca de 326 alunos, se incluirmos o Doutoramento em Artes Visuais, inspirado pelo Departamento mas obviamente gerido pelo IIFA. Tendo-se reduzido com Bolonha o número de anos lectivos das licenciaturas, foi curiosamente a partir daí que o Departamento mais se desenvolveu, criando -se uma nova Licenciatura e o Mestrado em Design, o Mestrado em Ilustração em parceria, e um novo Doutoramento acreditado em 2010.

Consideremos que, em 2006, a licenciatura em Artes Visuais preencheu 26 vagas no Acesso ao Ensino Superior, sendo 115 a nota mínima de acesso, havendo apenas 6 alunos na 1ª fase que colocaram a nossa instituição em primeira escolha. Frequentava então o Departamento um total de 192 alunos.

Em 2010 ingressaram conjuntamente nas licenciaturas de Artes Visuais e Design 85 alunos, tendo estes cursos figurado para 58 alunos, na mesma 1.ª fase do Acesso, como a primeira escolha nacional. A média do último colocado na 1.ª fase dos acessos foi de 137,5 em Artes Visuais - Multimédia e 139,3 em Design, infelizmente as mais altas da Escola das Artes e no grupo das mais altas na Universidade.

Estes resultados do DAVD são extraordinários se verificarmos que coincidiram com tempos de crise persistente, que se foi agravando, e que afecta sobretudo sectores como o nosso, mais novos e menos enraizados ainda na Universidade. Eles provam que é possível melhorar a qualidade pós - Bolonha e só foram possíveis dada a conjugação no Departamento de estratégias, artística, científica e técnica, o empenhamento de todos os seus membros, bem como o persistente apoio da Reitoria. Esta conjugação esteve antes de mais assente nos seguintes factores:

  1. Uma visão socialmente inteligente e menos romântica dos cursos de Belas Artes e Design. Independentemente de formarmos alguns alunos de elite que poderão sobreviver no difícil mercado da teoria e prática independente das artes e design, a maioria dos alunos necessita de formação direccionada para encontrar rapidamente um emprego após a conclusão da Licenciatura ou Mestrado. A maior e mais interessante área de emprego para nós, em 99 o Ensino Secundário, está hoje nas artes e design digitais e multimédia.
  2. Esta área tecnológica digital tem que funcionar para a maioria dos alunos como o atractor pois é criadora de saídas profissionais, permitindo um índice de empregabilidade elevado - ela exige no entanto também altos índices de competência tecnológica e actualização. Só com estes alunos é possível "pagar" e manter em actividade sectores artísticos ou do design mais específicos ou tradicionais, que são indispensáveis no sentido de garantir a qualidade da reflexão e da formação geral.
  3. Esta opção maioritária pelas novas tecnologias e o digital, adequada ao pulsar da sociedade contemporânea, é também inspirada por uma análise do panorama do ensino em Portugal e na Europa, em que a formação nesta área é ainda insuficiente. Aqui podemos descomplexadamente fazer uma diferença, atraindo em primeira escolha alunos de todo o mundo.
  4. O investimento da Universidade neste sector, consubstanciado na requalificação em curso no Pólo dos Leões, no apoio aos novos cursos, na renovação do corpo docente e noutros investimentos pontuais, como a aquisição neste ano lectivo de um importante núcleo de software digital artístico, qualificou esta instituição como uma das mais bem preparadas em Portugal para cumprir esta missão.
É importante reflectir sobre o passado mas ainda mais importante acautelar o futuro. O principal está ainda por fazer: Em 2011 estamos a meio de uma importante reestruturação dos planos de estudos - a continuidade dos projectos encetados é fundamental para o seu sucesso. Não podemos parar. Para além dos interesses e obstáculos conjunturais, espero que projectos de excelência com grandes resultados - como o do DAVD - não fiquem pelo caminho. Está em jogo a Universidade.
Filipe Rocha da Silva | Departamento de Artes Visuais e Design
Publicado em 31.01.2011