19 Novembro 2017
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The ISI way

Apesar do título provocativo, tenho absoluta consciência de que o tema da investigação é um dos mais importantes da vida de uma instituição universitária. Nem de outra forma poderia ser. Contudo gostaria de deixar aqui algumas reflexões:

1-      Creio que não existe apenas uma cultura científica na universidade portuguesa. Esta que se discute, a dos índices de publicações em revistas com referência internacional nasceu associada à área das ciências mais duras (tanto quanto sei nos EUA perto da década de sessenta) tendo-se vindo a estabelecer como paradigma científico pelas outras áreas afins. Contudo não é (ainda?) o paradigma das chamadas Ciências Humanas e Sociais a que pertenço, onde só em número reduzido, quase insignificante, o modelo foi adoptado para publicações portuguesas da especialidade.

2-      Ainda assim, julgo que ninguém tem dúvida da vitalidade destas ciências e dos seus investigadores. A multiplicidade e qualidade de publicações realizadas nos últimos anos em História, Sociologia, Literatura, Direito etc. está aí para o provar. Além de monografias extensas, muitas resultado de projectos de investigação de anos (FCT, Gulbenkian, etc.), os investigadores destas áreas têm um apelo forte pela divulgação, publicando obras para um largo público, escolar ou não. Que, apesar de fundadas na investigação série e longa, são transformadas em produtos fundamentais de comunicação científica. Este trabalho não aparece nos relatórios que ultimamente têm sido pedidos aos docentes. Claro que para haver divulgação científica tem de haver investigação. Mas uma das missões da Universidade é a transmissão de cultura, e não apenas entre os seus pares, mas para a sociedade e essa só faz através dos processos que a que, abreviadamente aqui, denomino de socialização da ciência. Também não aparecem os textos realizados para as conferências, e publicados no que vulgarmente se chamam actas.

3-      Não tenho dúvida que parte do material produzido para ser publicado em actas e em revistas (não isadas) terá qualidade heterogénea. Bem como algumas das edições que saem a público (apesar de aí existir um certo crivo comercial das editoras…). Donde, a avaliação do trabalho dos investigadores – pela existência destas diferentes culturas científicas – tem de ser realizado de maneira diferenciada. A exigência pode, e deve, ser estabelecida em padrões claros de avaliação, mas esta não pode negar uma tradição científica e cultural vigente no mundo académico. Criem-se instrumentos novos de avaliação e análise sensíveis a esta realidade e tenho por certo que os resultados de investigação poderão melhorar.

4-      Não se deduza do que disse que considero que as Humanidades valorizam mais a divulgação científica que as Ciências (tomo agora esta divisão). Pelo contrário. Acho extraordinário o trabalho que vem sendo realizado por muitos investigadores destas áreas, e as políticas educativas que o vêm promovendo (Ciência Viva, etc.).

5-      Por outro lado, o professor universitário é ao mesmo tempo (e deve absolutamente ser) investigador e docente. A componente do ensino, do bom ensino, entenda-se, é muito absorvente. Boas aulas são difíceis de preparar, elas resultam de uma actualização científica constante, associada a uma capacidade docente que assenta, entre outros primores, na maneira eficaz e apelativa de transmitir conteúdos e de os saber avaliar. Mas, enquanto professor, ele enfrenta todos os dias o material humano do seu ofício: são alunos, pessoas que estão à sua frente, com qualidades e capacidades, e até estados de espírito, muito diversificados e que ele tem de conseguir mobilizar. Paradoxalmente, nos dias que correm, a profissão docente é muito desvalorizada. Ainda é comum ouvir dizer que “quem sabe, sabe, quem nada sabe ensina”. Mas se cada um, retrospectivamente olhar para o seu percurso, saberá recordar os maus e os bons professores que teve. E nesse exercício de memória encontrará facilmente as qualidades dos bons professores que teve (e os defeitos dos maus) que, eventualmente, influenciaram as escolhas profissionais que veio a fazer.

6-      Conheço professores muito bons, muito dedicados à docência, e cuja carreira de investigação não é notável. E conheço (conhecemos) o seu inverso. O novo ECDU parece mais sensível a esta realidade académica, assim o sistema de avaliação a possa seguir também.

7-      O bom ensino não é fácil, mas por essa mesma razão não deve ser facilitista. As taxas de insucesso escolar no ensino superior, e sobretudo a baixíssima cultura dos actuais estudantes universitários (à entrada e saída das suas formações), tem de nos fazer pensar, reflectir, e verificar se as opções seguidas pela cultura científica e pedagógica dominante não estarão erradas. E se avaliação das universidades e dos seus docentes – para as consequentes reformas (Bolonha) - não terá de ir muito, muito além das listagens das publicações científicas nos índices internacionais. Este será o caminho difícil e o que me parece que está ainda por fazer.

 

 

Sara Marques Pereira

Évora, 12 de Dezembro de 2009

Publicado em 29.04.2013