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Entrevista a Antonio Sáez Delgado

São múltiplas as facetas em que se desdobra o trabalho literário de Antonio Sáez Delgado. Especialista em literatura comparada, mais concretamente, em relações literárias entre Portugal e Espanha nas primeiras décadas do Século XX, Antonio, doutorado em Filologia Hispânica, é escritor, tradutor literário, investigador e professor de Literaturas e de Tradução na Universidade de Évora.

“Entre cá e lá”, entre Espanha e Portugal, é assim que gere o seu tempo. E é sobre esta vivência que «En otra Patria», uma das suas obras, se autodescreve como “espanhol em Portugal, meio português em Espanha”, aflorando sentimentos contraditórios. Sobre Évora, para onde se desloca diariamente desde 1995, escreveu «Miradouros», e do avô materno, que vivia em Cáceres, onde nasceu, herdou a paixão pela literatura.

A inspiração para escrever essa “espécie de turbilhão” que é a poesia pode surgir duma palavra, verso ou sintaxe, “digamos metaforicamente que é o poema que escolhe o autor.” Para Antonio “a literatura não é propriedade dos autores, dos leitores, dos livreiros ou dos editores. A literatura está em todo o lado, só temos de ter olhos para ver as suas marcas, as suas pegadas”.

Por isso, acredita “mais na transpiração do que na inspiração”, no que concerne à construção da obra literária; “acredito muito no trabalho. A obra literária é um processo de riscar, é um processo de destruir”.

Fernando Pessoa, José Saramago, Teixeira de Pascoaes, Fialho de Almeida, António Lobo Antunes ou Manuel António Pina, são os autores principais da já extensa galeria de obras que traduziu para espanhol.

Integra, ainda, a equipa de investigação do Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa, estando atualmente a trabalhar num projeto em conjunto com Santiago Pérez Isasi, em que “vamos construir uma espécie de narrativa sobre as relações literárias de âmbito ibérico na segunda metade do século XIX e primeira do século XX”.

Sobre a conciliação das suas diversas facetas, considera que existe uma certa interpenetração, simbiótica e profícua, “no meu trabalho como tradutor há a visão de um poeta, preocupado com a essência poética da linguagem, tal como no meu trabalho como investigador há a visão de alguém que conhece a literatura por dentro e por fora.”

Tem, neste momento, vários projetos em paralelo. Lançou já este ano um número monográfico (edição de março da revista Abriu, Universidade de Barcelona), dedicado ao «Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, na perspectiva do desafio para tradutores/editores».

Um outro volume monográfico, sobre Almada Negreiros em Madrid, foi recentemente organizado em conjunto com Filipa Soares, professora da Universidade Autónoma de Madrid.

E, em simultâneo, várias traduções estão em curso. “Acabei agora um romance de Lobo Antunes, está para sair um livro de Gonçalo M.Tavares e vem aí uma antologia de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa”.

Recentemente começou a dirigir a Coleção de Autores Portugueses da Editora La Umbría y la Solana, de Madrid.

 

Publicado em 10.05.2017