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Quintino Lopes desenvolve projeto de relevância científica internacional no âmbito do pós-doutoramento na UÉ

Quintino Lopes, investigador do Instituto de História Contemporânea e do seu Grupo Ciência da Universidade de Évora (UÉ), está atualmente ligado a esta universidade, uma instituição vital na sua formação académica, na qual desenvolve o projeto de pós-doutoramento “The scientific 'centrality' of a 'peripheral' laboratory: the University of Coimbra Experimental Phonetics Laboratory (1936-72)”.  

Neste projeto, Quintino Lopes resgata o trabalho de Armando de Lacerda (1902-1984), uma figura central na Fonética mundial pela criação de instrumentos científicos inovadores, como o “Policromógrafo”, e o pioneirismo nos estudos sobre coarticulação e segmentação dos sons da fala, em colaboração com Paul Menzerath (Universidade de Bona). Armando de Lacerda foi ainda o introdutor da Fonética Experimental em Portugal e o criador do primeiro Laboratório de Fonética Experimental da América do Sul, na Universidade da Bahia, em 1957.

Fundamentalmente pelo facto de possuir o “Policromógrafo”, e outros cromógrafos entretanto desenvolvidos por Armando de Lacerda, o Laboratório de Fonética Experimental da Universidade de Coimbra, fundado e dirigido pelo foneticista portuense, era considerado em inícios dos anos cinquenta como o mais avançado laboratório de Fonética Experimental da Europa, motivo por que atraía investigadores de vários pontos do globo para estudar cientificamente a fala humana. O espaço de investigação entrou mais tarde numa trajetória de declínio, até ser desmantelado nos anos 1970 e ter caído no esquecimento. No âmbito do seu trabalho, Armando de Lacerda captou sons de falares regionais e de leituras de textos. Sendo um cientista meticuloso, registava tudo ao pormenor, pelo que existem ainda as fotografias dos entrevistados e os seus dados, informação que ainda pode ser encontrada na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Pela projecção internacional que possuía é possível observar a correspondência com alguns dos maiores especialistas mundiais da fonética, da Alemanha nazi à Hungria comunista, sinal da existência de redes científicas com regimes ideologicamente opostos.

Através deste projeto de pós-doutoramento tem-se procedido à digitalização de documentação dispersa em arquivos portugueses e estrangeiros, e à gravação de entrevistas em formato áudio e vídeo, com a colaboração dos Serviços de Informática e Audiovisual da UÉ. Quintino Lopes tem sido também consultor do projeto da Universidade de Lisboa visando a recuperação e valorização da memória do Laboratório de Fonética e Fonologia da Faculdade de Letras de Lisboa e, por seu intermédio, do Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra, na medida em que parte do espólio deste espaço laboratorial se preserva nas atuais salas do seu congénere em Lisboa. Por outro lado, a importância conferida a este projeto pelo Museu Nacional de História Natural e da Ciência destaca-se pelo facto de a sua diretora, Doutora Marta Lourenço, no ano letivo 2018-19, ter iniciado uma colaboração com o Laboratório de Fonética e Fonologia da Universidade de Lisboa, visando a inventariação, higienização e musealização do espólio deste laboratório.

A relevância científica internacional do Laboratório de Fonética Experimental da Faculdade de Letras de Coimbra para a ciência do século XX motivou o registo, em junho de 2019, do presente projeto na Universidade de Évora como programa de pós-doutoramento de Quintino Lopes. Este estudo é supervisionado por Maria de Fátima Nunes (Professora catedrática da Universidade de Évora - Departamento de História), por Maria Filomena Gonçalves (Professora associada com agregação da Universidade de Évora - Departamento de Linguística e Literaturas) e por Francisco de Lacerda (Foneticista e Professor catedrático da Universidade de Estocolmo - Departamento de Linguística). Anteriormente, Quintino Lopes já tinha estado ligado à UÉ, instituição onde concluiu em 2017 o Programa de Doutoramento em História e Filosofia da Ciência, tendo a sua dissertação A Junta de Educação Nacional (1929-36): traços de europeização na investigação científica em Portugal, sido classificada por unanimidade com a nota máxima de “Aprovado com Distinção e Louvor”. Em 2018, foi laureado com o Prémio “Publicações Internacionais de Jovens Investigadores” da Associação Portuguesa de História Económica e Social.

A importância e a unicidade que o tema em estudo introduz na agenda historiográfica e no espaço público têm sido ultimamente reconhecidas por órgãos de comunicação social de referência a nível nacional. Também recentemente, em colaboração com Elisabete Pereira, Quintino Lopes publicou o estudo “Armando de Lacerda and Experimental Phonetics in the inter-war period: scientific innovation and circulation between Portugal, Germany and Harvard”, publicado pela Technische Universität Dresden Press.

A magnitude deste projeto de pós-doutoramento na Universidade de Évora motivou o seu financiamento privado pela empresa Ferraz de Lacerda, Lda. Este mecenato, justificando o Memorando de Entendimento já assinado entre a Ferraz de Lacerda e a Universidade de Évora, permitiu ampliar as redes internacionais que a investigação comporta. Exemplificativo será o facto de ter possibilitado a Quintino Lopes realizar, no passado mês de outubro, uma missão de estudo aos EUA, onde investigou nos arquivos da Universidade de Harvard e da Universidade de Wisconsin-Madison, recolheu o testemunho de Sheila Rogers Ackerlind, uma figura vital para a compressão da relevância internacional do Laboratório de Fonética Experimental de Coimbra, e proferiu a palestra “Armando de Lacerda (1902-84) and the circulation of knowledge between Portugal and the USA”, a convite da Academia Militar de West Point, NY.

Tratando-se de uma investigação ainda em curso, procederemos a uma atualização contínua do projeto de Quintino Lopes, com o objetivo de relatar as novas descobertas.

(Armando de Lacerda a lecionar um curso de introdução à cromografia no Instituto de Fonética da Universidade de Bona (1933). Crédito: Arquivo Familiar Zamora Canellada)

Publicado em 08.01.2020